Ora bem.
Passar sem os headphones nos ouvidos na Rua de Cedofeita é uma aventura a que se não escapa impunemente. Lá ia eu, sossegada, a pensar cá com os meus botões 'ah, a primavera, a primavera...!' quando ouço um casalinho a conversar alegremente atrás de mim. E dizia ele, do alto daquele seu look a imitar o Eddie Vedder nos idos dos anos 90, de trunfa abastada e de barba a rarear (certamente a caminho do estilo 'lumberjack'), 'Então, tu não acreditas que lá no curso, naquele curso que o Zé 'tá a fazer, ele teve de ler em voz alta um livro qualquer...?' E, ao som de um 'ah, não posso...!' dela, como se a leitura em voz alta fosse um sacrilégio, continua o iluminado 'Eishhhhh, e não é que o livro era todo marado...começava com "e depois, chega o cavaleiro...e pegou nela...e DEFLOROU-A e o car$%&". Pois. Esta foi a parte em que eu tive que apressar o passo, antes que abafasse com o riso. Confesso que desconheço a totalidade dos livros que fazem parte do Plano Nacional de Leitura e bem assim o sistema de ensino português tal como se apresenta actualmente mas, a julgar pela eloquência deste senhor, da sua amiga e do amigo do livro, temo bem pela língua portuguesa - e, a bem dizer, por outros desempenhos também. |
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Patchwork
Em tempo de isolamento social, tenho acabado muitos projectos que tinha em mãos. Mas não tive coragem de olhar para o projecto que tenho inacabado há mais tempo. Porque me tenho sentido incapaz de o acabar. Até agora. Já devo estar há demasiado tempo dentro de casa para ter a ilusão que sou capaz de fazer isto. Qual Capitão Ahab, frente à baleia branca. A ver vamos. P.S.: O que mais me enfurece é que, ao arrepio do que costumo fazer, isto parece não ter esquema nenhum e ser à sorte...e isso aflige-me. Deve ter sido um acto rebelde da minha parte mas agora, bem vistas as coisas, não sei se estou muito contente com isso.
Amar, verbo intransitivo
O romance que escandalizou a sociedade de São Paulo em 1927: a história de Carlos, adolescente numa família burguesa tradicional, e da sua iniciação sexual por Fraulein Elza, contratada para o efeito. É uma das obras que marca o início do Modernismo Brasileiro e, por isso mesmo, é estranha, fruto da originalidade que é imprimida à linguagem - nada fácil para nós, portugueses, em alguns termos - e do alheamento das regras gramaticais. Implica algum esforço e estranha-se. Mas gosta-se. É uma experiência.
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